CÓPULA DE CAOS
no mar
garçonetes
servem absinto aos camelos
acasos
descrevem
pássaros
despir Nadja
em silêncio
com vestígios
de sêmen
cópula de ocasos
beber o sal
das manhãs
línguas assaltam altares
e arrancam raízes
SOBRE UM POEMA
um poema:
gélida lava
de assombros
à cingir o vasto espaço
do sonho
libélula de corais
no findar dos mares
um poema:
olho cálido
serpentes de
silêncio azul
rasgam o fino espaço
do branco
Darwin Ferraretto 22/09/06
ÊXTASE
farol de ostras silva no zênite
e os servos antagônicos bebem estrelas
corta-se o mar das certezas
e o leve rumor dos versos mudos
balança as pilastras das sedas importadas
coral de assombrações
digerem cardumes de mentiras
e as flores de amanhã deitam-se entre esquinas
o vento das cavernas livra os cometas incautos
num silêncio de olhares trêmulos
caídos no ocaso das meninas
esquecer as luzes cegas dos mamutes
vazar os olhos amargos das rosas
e embebedar-se no néctar das vulvas
Darwin Ferraretto 10/10/06
“uma árvore filosofa portas de vidro”
uma árvore filosofa portas de vidro
e traça nos estômagos laranjas azuis
mas como aranhas
brincantes
cai uma janela
na orelha
das nuvens
uma árvore filosofa
e as pedras poetam
o Sol
numa folha de papel
Darwin Ferraretto 23/10/06
cotidiano
Existem as manhãs, as noites
a inútil certeza da vida
arranca das nuvens qualquer claridade
e assim, desaprender a luz
e também as árvores e as pedras
Existem as verdades, diurnas
brasas inconstantes de palavras
e a água corrente engole serpentes
e assim, morreria deus
numa estrela-do-mar
II
O tempo, estranho silêncio das rodas girantes desvela aos incautos seus medos. A serpente destino repousa sob o orvalho triste do pássaro-lira e queda-se ligeira. Serena, a artéria pulsa sonhos e pedras. Os homens, estranhos seres, se arrastam, cantam os ouros inatos dos deuses mortos. A vazia lei das noites derrete os escaravelhos, ou a essência da chama arde nos cérebros dos andarilhos. Um passo, somente o passo rumo ao abismo.
Flutua nas entranhas de uma terra devastada, navega como um barco livre e bêbado de ilusões. As ondas tirânicas açoitam os senhores da terra, encardida em sangue e pus.
A mulher de face oculta e dantesca brada rosas de Hiroshima, os hipocampos vertem raios de sol no basalto. As rotas traçadas apagam-se, os caminhos das terras prometidas perecem como bandeiras sem vento. Outro dia, e a palavra desconstrói o tempo, arrasta o hercúleo esquecimento das orquídeas. Sombra deste mar, a bacante beija os lábios de um leão esfaimado, os arquipélagos vaginais clamam estrelas.
O objeto cantarola janelas e os álamos vertem outonos. Um estranho fruto, coagulada loucura das horas, mastiga os seixos do sexo de Paris.
COSMOGONIA
Os seios azuis da manhã caem entre os vazios das searas. Os dias se desmancham nas lágrimas das víboras que beijam os abutres. Certamente, alguns arautos proclamarão o fim dos tempos, outros as novas eras. As rosas mastigadas da tarde pisoteiam os ataúdes dos profetas enquanto nasce um deus manco, corcunda e caolho. Os dromedários dançam estrelas e as fontes secas rumorejam silêncios nas gargantas.
Os veios do lenho esmaecido desenham horizontes impossíveis na retina do sol e partem para o infinito de uma palavra ainda não escrita. As janelas cantam saudades e uma mulher nua beija o asfalto rachado dos sonhos. As cimitarras enegrecidas de sangue antigo choram tulipas e as salamandras rastejam no olho cego de um rei enlouquecido. Uma deusa cria mundos no ventre das gazelas e os rios esmagam as verdades clementes. Os anjos surdos tocam a lira de tripas e rastejam nos calabouços de sons.
Os ventos cerram os cardápios das bodegas e levitam os rinocerontes amorfos em vestes de seda. As púrpuras vozes das lesmas encantam os viciados em quimeras, enquanto os vidros abertos do horizonte serpenteiam ilusões perfuradas.
As bocas: seis riem satisfeitas. Outras sessenta estão cheias. Seiscentas clamam ao silêncio um sonho qualquer. Seiscentos e sessenta e seis bocas. Os zeladores da moral clamam novas regras, os círios acesos das putas crepitam ouros encardidos nas esquinas, as velhas fumam crack na praça da república em meio a passeata incessante dos gays.
Os corpos. Seis corpos esbeltos desfiam orquídeas. Sessenta corpos caminham pedras. Seiscentos corpos mastigam ossos de asfalto. Seiscentos e sessenta e seis corpos. As vísceras encardidas, os pulmões putrefatos, os cânticos clamados entre dentes inexistentes. Os cegos guiam cães raivosos, os pássaros de ocaso dançam entre as veias arrancadas, nas encruzilhadas assinaladas pelo sangue menstrual das santas.


